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As montanhas não escolhem suas vítimas. |
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Imagine um jovem alpinista brasileiro no Everest. No acampamento II, um lugar teoricamente seguro na parte baixa da montanha, num dia de descanso para aclimatação, ele se afasta um pouco das barracas para fotografá-las de um ângulo mais apropriado. Subitamente pisa numa greta (uma fenda no gelo escondida sob uma fina camada de neve) e despenca num buraco com trinta metros de profundidade, morrendo na hora. Inexperiência, imprudência, imperícia, ambição além das suas possibilidades seriam alguns adjetivos com os quais sairia rotulado. E crucificado pela "imprensa" e por outros "montanhistas experientes". Agora imagine a mesma cena, o mesmo acidente ocorrendo com alguém que seja classificado por todos como o maior escalador do Everest em todos os tempos. Alguém que já tenha chegado ao cume dez vezes, que tenha sido o primeiro (e até o momento o único) a pernoitar no topo da montanha e descer vivo para contar a história, alguém que tenha subido do Acampamento-base até o cume em pouco menos de dezessete horas, batendo o recorde de velocidade neste desafio. E, ainda por cima, imagine que este escalador seja um Sherpa, um nativo do Everest. Impossível? Pois foi exatamente isto que aconteceu na tarde do último dia 29/04/01, quando Babu Shiri Sherpa morreu no Everest, exatamente nas circunstâncias acima descritas. A notícia pegou de surpresa todo o mundo do alpinismo, de Porto Alegre a Seattle, de Londres a Katmandu. E aterrorizou todos os que estão no Himalaia neste momento, alta temporada na região. Babu Shiri Sherpa, o maior recordista do Everest, morreu quando escolhia o melhor ângulo para tirar algumas fotos do seu acampamento. Seria cômico, não fosse trágico. O que dizer? Em quem, ou no quê, por a culpa, a responsabilidade? Apenas os escaladores realmente experientes, os velhos lobos das montanhas sabem o que dizer: absolutamente nada. As montanhas não escolhem suas vítimas. Uma lei impiedosa, cruel. Mas prática. Aceitar esta lei é a forma mais correta de admirar os vencedores. E, especialmente, entender os perdedores. |
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Jornalista e montanhista. |