Romper esta barreira foi um acontecimento fantástico para a humanidade, recém saída dos horrores da II Guerra Mundial. O homem mostrou, com esta vitória, que poderia realizar os seus sonhos de superação praticando esporte nas montanhas, em vez de morrer estupidamente em campos de batalhas. Superar limites, vencer barreiras, descobrir o desconhecido. Tudo isto se tornou possível sem que fosse necessário agredir outro ser humano. Ou a natureza, tão ferida em Hiroshima.
A vitória de Maurice Herzog, mais do que uma conquista puramente esportiva, mostrou que havia acabado o tempo em que os fatos heróicos pertenciam aos generais, comandantes e brigadeiros. Um homem comum, um intelectual (mais tarde ele foi ministro da Cultura da França), venceu o frio, o cansaço, a falta de oxigênio e o medo da morte. E subiu até onde ninguém antes havia subido.
Naquela época, as grandes expedições eram questões nacionais. E a Grã-Bretanha, que se considerava dona do Himalaia, tremeu nas bases, pois havia mais de 25 anos que tentava escalar o Everest, sem sucesso. A vitória dos franceses (agora num campo de batalha pacífico) mexeu com os brios do Império Britânico, que passou, a partir de então, a considerar a conquista do Everest um orgulho nacional. Mas três anos ainda se passaram até que o britânico neozelandês Edmund Hillary e o sherpa nepalês Tenzing Norgay conquistassem o ponto mais alto do planeta.
A conquista solitária dos franceses, há 50 anos, foi tão fantástica que poucas pessoas conseguiram repetir seu feito. Para comemorar a data, este ano foi montada uma super expedição internacional. Patrocinada pelas coroas espanhola e nepalesa, o propósito era repetir a escalada histórica. Liderada honorificamente pelo próprio Maurice Herzog, que se deslocou de Paris até Katmandu, o grupo fracassou, ainda na metade do Annapurna.
Cinqüenta anos depois se repetiu a lição: as grandes conquistas são muito mais conseqüência da obstinação e destemor de alguns homens do que dos grandes projetos de Estado.