Rapeleiros X Eco-chatos.

Vocês já ouviram sobre os pilares do céu? Bom, são as pessoas que impedem que o céu desabe, mantendo as diferenças e o espaço necessário para a vida entre os extremos. Literalmente impedem que o céu e tudo o que representa cai por terra, por assim dizer.

Parece que não se opta por essa condição, e se tirar isso do indivíduo, não sobra nada. Assim alguns tem a missão no mundo de amenizar a dor, outros de trazer a justiça e outros trazem em si a missão de explicar, de esclarecer, de divulgar o conhecimento. Desta forma, provavelmente não poderemos nos furtar desta "missão" e sendo ou não eco-chato devemos ter claro qual o nosso compromisso real com o planeta, a tal consciência planetária, a percepção da realidade e não a abstração humana da realidade particular de cada um.

Assim, o que vemos hoje não é apenas a adrenalina descerebrada, mas consumismo que gera empregos e dinheiro para inúmeras empresas e governos. O que se mantém é a teoria antropocêntrica de que o mundo existe para o saque e prazer e não que somos apenas mais um inquilino. O mercado, ciente do tédio e vazio do "novo montanhista" incapaz de avaliar causas e efeitos e que enxerga apenas a si próprio, trata de equipá-lo e soltá-lo no novo play ground: as matas, as montanhas e os rios. Como ninguém paga pela manutenção das florestas e dos danos ambientais isso é puta negócio, ganha-se dinheiro na casa do vizinho, não é preciso ressarcir ninguém e ainda se desfila de ecológico e amante da natureza. É legal as fotos que provam que sua vida têm "aventura" e que a responsabilidade é apenas com seu próprio prazer. Não é ?

Com este quadro e interpretação, somente através da divulgação e documentação criteriosa dos fatos, da implantação de projetos educativos e de preservação e sobretudo do fortalecimento de associações capazes de mobilizar seus associados e de divulgar as conquistas é que conseguiremos reverter ou no mínimo nos fazer ouvir. Sensibilizando e colocando o dedo na ferida. Nada melhor que uma boa campanha de esclarecimento com muitas fotos e depoimentos para chamar a atenção da população.

Há alguns dias, não me recordo quem, estava falando sobre o impacto do rapel e escalada na flora das encostas. Pois é, essa constatação já deveria ter gerado uma mobilização no sentido de educar e documentar. No mínimo deveria ter aparecido uma discussão mais aprofundada e dela ter saído uma norma de conduta e pelo menos um projeto de estudo de reposição da flora dos
locais mais atingidos. E ai ?

Por isso é que somente seremos eficientes a partir do momento em que formos capazes de agregar conhecimentos e atitudes numa direção definida. Daí a importância de não perder as idéias e denuncias que passam por nós. Creio que um primeiro passo seria a criação de um banco de dados e estabelecer normas de conduta de como proceder um registro, denuncia e acompanhamento das agressões ambientais (individual e através de associações, ongs, etc). Depois disso partir para a definição das atividades de recuperação e preservação dos locais afetados.

Um exemplo disso é o projeto Infotrilha, que estamos em fase de desenvolvimento e que amanhã vou levar no Parque Nacional de Teresópolis para uma primeira avaliação. O fundamento deste projeto é fazer circular relatórios com o real estado das trilhas, contribuindo assim para o manejo das mesmas. Creio que devemos sempre começar com projetos exeqüíveis e de aplicação imediata do que coisas complicas e com milhões de variáveis. Acredito que o somatório de pequenas ações é que fazem a diferença.

Flávio Zen Mello