Rapeleiros go home.

 

Pois é macacada, nosso esporte tomou vulto, ficou famoso e cresceu. Quem se lembra de como as coisas eram há 5, 6 anos atrás? O crescimento foi ótimo! Hoje temos excelentes escaladores e o nível das vias aumentou significativamente. O Brasil já escalou o Everest e o K2. Já mandou brasa em big-walls A5 no Yosemite, já escalou o Cerro Torre, a Nameless Tower, tem vias com dificuldade e engajamento necessários para tirar da cabeça de qualquer gringo que o Brasil é a terra só do futebol. Temos um bando de moleques mandando brasa nas academias, escalando vias escabrosas e melhorando significativamente o nível da escalada por aqui. Pessoas que antes nunca poderiam pensar nisso agora podem viver do montanhismo (quando falo montanhismo falo de todas as atividades decentes ligadas à montanha) e isso é um barato!

Mas na contra-mão desse crescimento surgiram verdadeiras pragas. São os famigerados “rapeleiros”, figurinhas novas e pentelhas que agora teimam em habitar o mundo da montanha, principalmente quando um deles despenca da corda (“Alpinista morre em escalada” conhecem?). Pois é, o termo “rapeleiro” serve para designar qualquer um que veja nas montanhas um local para a prática de “sobrevivência”, da “exploração”, de “esportes radicais" (iuhuuu), para fazer uma bela social com a mulherada (“Opa, e aí mina?... eu sou alpinista manja?...”), para gastar o dinheiro com quilos equipamentos, quantidade suficiente para se abrir duas vias de A7 com 50 dias de duração cada uma... Enfim, um fulaninho que se sente o Magiver ou o Silvester Stallone em Clif-hanger ou qualquer outra coisa distorcida que junte o ambiente natural das montanhas com aventura.

Esse movimento é um protesto AMBIENTAL, de ética e RESPEITO pelas montanhas e SÓ AS MONTANHAS, na forma de vias, trilhas, atividades, campos e tudo o que é DECENTEMENTE ligado à montanha. Não se trata de uma competição besta sobre quem "manda melhor", escaladores ou rapeleiros? Este é um protesto contra TODOS (sejam montanhistas, guias disso e aquilo, instrutores assim e assado, lojas e empresas que fazem das montanhas uma mina de ouro, sejam os rapelentos de final de semana, seja QUEM FOR). O termo "rapeleiro" é a melhor maneira que encontramos para generalizar (generalizar SIM!) esse tipo de gente e suas atividades nojentas em ambientes naturais frágeis. ENTENDEU QUEM ENTENDEU. Dane-se se a burrice de alguns que não permite enxergar mais adiante.

Os "rapeleiros" (não iremos usar aspas daqui para frente) surgiram no rescaldo da onda de esportes de aventura que tomou conta do nosso país no últimos dois anos, principalmente. As corridas de aventura e orientação (as diversas modalidades) serviram de trampolim para uma turminha de "Rambos moderninhos". Trampolim para que essas pessoas deixassem os campos de paint-ball, de estruturas de escalada da Coca-cola, pontes e viadutos, ... e passassem a “atuar” em ambientes naturais frágeis. Abriu-se uma frente de mercado esportivo nunca antes visualizada com tanta clareza pelos empresários brasileiros: o mercado das atividades outdoor. Conclusão: uma enxurrada de pessoas informadas (ou não) pegaram suas mochilas e foram para as montanhas apagando com suas pegadas, cordas e gritinhos toda uma história, trabalho e respeito pelas montanhas brasileiras desenvolvida ao longo dos últimos 30 anos de montanhismo. História contada por lendas vivas como Domingos Giobbi e tantos outros. Locais consagrados para a prática da escalada se viram tomados, da noite para o dia, por pessoas de todos os tipos e com as idéias mais esdrúchulas possíveis ... Rapel daqui e acolá, tirolesa de um lado para o outro, corridas de aventura assim e assado, equipes “eco-fucking-climbers” ou qualquer outro nome ridículo dado para grupos que se reúnem para brincarem (e competirem) travestidos de Indiana Jones ou Comandos em Ação em locais como os campos de altitude e paredes rochosas que precisam e devem ser preservadas.

Nessa mesma onda veio o inevitável: degradação rápida e silenciosa (apesar de não tão silenciosa assim) do meio. Não falo apenas de intervenções desastrosas de grampos em vias de escalada (como aconteceu no Bauzinho ano passado ou em vias no Itatitaia), falo também de montes de pessoas passando pelas trilhas, subindo por acessos diferentes (para cortar caminho), fazendo fogueiras (até mesmo uma revista “especializada” trouxe em um dos seus exemplares um guia completíssimo de como se obter fogo na montanha), carregando quilos e quilos de coisas para cima, montando verdadeiros circos, aumentando a erosão, arrancando plantas, pichando as rochas, deixando “placas de oração”, etc, etc, ... (a lista vai longe). Tudo em nome da “aventura”!!!

Conscientização??? Opa, podemos tentar sim, aliás devemos ... Já existem pessoas fazendo isso! Mas enquanto isso não acontece que tal darmos uma mãozinha e empurrarmos algumas dessas figurinhas ridículas e porcas morro abaixo? Sim!!! É fácil fazer isso! Pode ser um empurrão físico ou um empurrão moral. Estou falando em literalmente DENEGRIR a imagem dessa atividade desenfreada que tomou conta de nossas montanhas. Fazer com que esse lance de “rapel”, “tirolesa” ou qualquer outra porra “emocionante” e degradante para o meio seja sinônimo de diversão barata e inconsciente, como coisa de farofeiro em praia de surfista. Sim!!! Podemos usar esta comparação: farofeiros em praia de surfistas ... Os surfistas NÃO são donos do local, mas ao menos se preocupam em manter a ordem natural das coisas por ali (óbvio que toda regra tem exceção) ... Já os farofas não ... Vão lá para fazer farra, entrar na água e sair correndo para rolar na areia igual croquete. Para colocar música alta no som do carro, para largar lixo, bitucas de cigarro, arrotar, peidar, mostrar o barrigão branco para a “mulherada”, comprar camarão no quiosque, levar conchinhas para casa, enfim ...

Felizmente as montanhas são, normalmente, locais de acesso mais difícil que as praias ... Isso torna possível um maior controle “moral”, por assim dizer, do que é certo ou não de se fazer nas montanhas. Deve-se lembrar que esse movimento de “busca de emoção” nas montanhas está apenas começando e por isso quanto antes começarmos a DENEGRIR a imagem desse tipo de emoção barata, mas cara para a natureza, melhor e mais eficiente será.

Camisetas, eventos e divulgação de ironias e sátiras sobre essas pessoas podem fazer com que pelo menos eles percam um pouco do orgulho em dizer: “faço rapel” ou qualquer outra coisa idiota desse tipo. Pode fazer com que eles parem um pouco e pensem: “Se esses caras estão falando que isso é uma besteira, deixa eu ver qual é a deles também” e com isso fazer com que eles procurem escolas de escalada decentes e não todas essas aberrações didáticas que vemos por aí.

O rapel, se não for para algum fim específico, só por pura emoção, é apenas uma atividade imbecil e sem sentido. Oras, existem tantos viadutos e pontes para brincar de bombeiro! Falamos em rapel porque está é a "modalidade" que melhor representa o espírito da busca por emoção barata e consumo. Agora, por que é que eles começaram a buscar isso nas montanhas? Será mais emocionante? Mais emocionante os cambau! Os caras agora estão com um papo para lá de chato de "juntar a beleza da natureza com a emoção". O problema é que a "emoção" vêm sempre em primeiro lugar que a natureza, e isso está errado! Eles se cansaram das pontes e agora querem procurar points novos para desenvolver sua maravilhosa técnica (terapia para alguns). Programão agora é levar a namorada para fazer fogueira ver as estrelas nas montanhas. Se tiver uma corda, uns mosquetões e um pouquinho de adrenalina perfeito. Dane-se a natureza. Aliás a fragilidade da natureza desses locais é a mesma que no parque do Ibirapuera, não é mesmo? O que vale é o que eu faço ou deixo de fazer lá.

Está na hora de adotarmos uma postura mais dura com relação ao que andam fazendo por aí. Não estou falando de mandarmos cartas-bomba para "agências de rapel” e eco-retro-turismo. Mas sim de detonar e denegrir os “profissionais” desta área. Já será um bom caminho. A começar com uma lista dos “Top 10 Fuckers” do mercado de aventura (mandem e-mails sugerindo nomes). Sejam eles empresários, revistas, sites, personalidades, o que for. De argumentos TÉCNICOS, ÉTICOS e principalmente AMBIENTAIS nós estamos cheios, basta torná-los claros para a parcela crescente de entusiastas e pessoas leigas que querem fazer parte desse mundo ou mesmo das que já fazem. Chega de levarem leigos para o mal caminho!

Pois é, mas enquanto isso não acontece que tal ajudarmos um pouco? Limpando a sujeira dos outros (fazer o quê né?), cuidando da nossa própria sujeira e atitudes, orientando os leigos, conversando, reclamando e brigando (no bom sentido). O "empurrão moral" nessa bagunça toda, principalmente nos que lucram com essa situação.

Quem não conhece os princípios MÍNIMOS de conduta consciente em ambientes naturais? Muitas pessoas ... Por isso sugiro uma visita ao site do Leave No Trace e o código mínimo feito pelo pessoal do CEU. Se um número maior de "rapeleiros" tivesse consciência desses princípios (mínimos), nossas montanhas estariam em bem melhores condições e nossos parques não estariam pegando fogo, apesar deste as vezes ser inevitável (naturalmente) e não ser exclusividade de "rapeleiro".

Esse é um protesto contra todas as atrocidades cometidas por pessoas sem o mínimo de respeito com as montanhas.

O anonimato se faz necessário uma vez que não são todos os que receberão o movimento/protesto com entusiasmo e o apoiarão. Tem muita gente fazendo dinheiro e se aproveitando da situação e estes com certeza não irão gostar nem um pouco dos nomes, das atitudes e das coisas aqui citadas/colocadas. Sem falar é claro de se poder literalmente falar o que bem entendermos, de quem quisermos sem se preocupar com possíveis represálias... Enfim: NÃO ESTAMOS PREOCUPADOS se quiserem saber quem nós somos, a Internet está aí para essas coisas. Na verdade nem é necessário se identificar, esse protesto tem origem em uma comunidade de escaladores / montanhistas / ambientalistas e representa o que todos eles pensam, num tom mais agressivo e pesado, sem dúvida, mas tal como a atuação dos rapeleiros em nossas montanhas, essas agressões também chamam a atenção e quem sabe (esperamos) surtam efeito.

"Rapeleiros", engulam a verdade. Vocês são uns %#@!!! Sumam das montanhas. Voltem quando souberem como respeitarem o meio ambiente, sem destruir e justificar seus erros estúpidos.

Go home!

 

E.H.

Montanhista