Montanhas da mente.

 
Correr riscos tem as suas recompensas: provoca emoção continua no coração.  Esperança, medo, esperança, medo, ... - Eis o ritmo básico do montanhismo. A vida, como tantas vezes se apresenta nas montanhas, é vivida de maneira mais intensa, quando mais próxima está a possibilidade da morte. Jamais nos sentimos tão vivos do que após os momentos em que quase morremos.
 
... mas de algo tenho certeza; na prática, se a pessoa chega a um local perigoso e recua, ainda que o ato seja absolutamente correto e sensato, o caráter dessa pessoa terá sofrido um pequeno desgaste; nada exceto o perigo produz tal efeito.
 
"Não é o descanso, mas o esforço - não é a facilidade, mas a dificuldade que faz o homem (ou a mulher)." Deveras benéficos são os efeitos da adversidade. Revelam a nossa força e invocam as nossas energias. Se não for preciso enfrentar as dificuldades, a vida talvez seja mais tranqüila, mas o homem (ou mulher) terá menor valor. O caminho mais fácil sempre leva ao declínio.
 
Chamonix (na França), a meca mundial dos amantes do montanhismo, segundo me consta, é o único lugar do mundo onde mastros de bandeiras têm anéis com pontas de aço para impedir que as pessoas os escalem.
 
Morre, em média, uma pessoa por dia durante a temporada de escaladas em Chamonix. E não se constata a falta destas pessoas. Não se vêem assentos vazios nos bares, nem amigos de olhos lacrimenjantes, nem pais perambulando pelas ruas cálidas em estado de choque. A única pista é o uop-uop das hélices dos helicópteros de resgate que cruzam o céu da cidade.
 
É evidente que nem todo mundo gosta de escalar montanhas. Alguma pessoa espirituosa observou, com sabedoria, que quando a circunferência de um homem ultrapassa determinada proporção, em relação a sua altura, tal indivíduo prefere permanecer nas planícies existentes no fundo de sua alma. Dito isso, a invenção de teleféricos, bondinhos e outras máquinas empregadas em subidas são testemunhos da ânsia de ascender, por parte de pessoas que não demonstram predisposição de subir montanhas a pé.
 
Eis o paradoxo da altitude: exalta e apaga a mente humana. Os que buscam o topo das montanhas, de certo modo, amam-se a si mesmos e amam o oblívio.
 
Os homens não foram criados para se amontoarem em formigueiros; quanto mais se congregam, mais se corrompem.
 
Os pontos mais elevados dos grandes picos parecem estar acima das leis que regem o nosso mundo inferior, como se pertencessem a uma outra esfera.
 
Nas montanhas já tive oportunidade de sentir o corpo estremecer diante da descarga elétrica de um raio. Com as minhas botas já produzi, na neve, faíscas fosforecentes e esverdeadas ao amanhecer. Já vi flores exóticas e assiti ao desmoronamento de torres de pedra de milênios. Já me sentei sobre a crista de uma rocha com um pé em cada país. Já caí em fendas e já fui envolto em uma luz de gelo cor turquesa.
 
As experiências obtidas nas montanhas são, em grande parte, incomunicáveis àqueles que lá nunca estiveram. De volta à vida cotidiana, após uma excursão às montanhas, muitas vezes, senti-me como um estrangeiro que regressa ao país de origem, um tanto desajustado e portando experiências inexprimíveis.
 
MACFARLANE, Robert
Montanhas da Mente
Ed. Objetiva
2005