O que é preciso para ser guia de montanha.

 

Há pouco tempo atrás, participei de uma discussão por e-mail sobre este assunto, mais especificamente sobre alta montanha, onde o ponto de vista do oponente me deixou preocupado.


Inicialmente argumentei que, embora não existisse uma regulamentação formal à respeito do assunto aqui no Brasil, tomando por base referências externas, espera-se que um guia de montanha domine as técnicas de escalada em rocha, travessia de glaciares, escalada em neve e gelo de diversas qualidades e inclinações, além de tem alguma "quilometragem" em montanhismo, ou seja, muitas escaladas, de diversos níveis de dificuldade em diferentes ambientes, inclusive expedições. Será que fui muito exigente ? A resposta virá mais adiante. Por enquanto, vou reproduzir aqui a réplica que me assustou:
 

"Enquanto não tivermos no Brasil uma escola para formar guias de alta montanha, com diploma e tudo, considero, na prática, guia de alta montanha aquelas pessoas que organizam e guiam profissionalmente grupos que pretendem escalar montanhas independente do seu grau de dificuldade. Esta é a vida real. O resto é teoria. Meu caro amigo: a indústria do turismo de aventura é o setor econômico que mais cresce no mundo. Eu estou interessado numa fatia deste mercado."
 

Diante desse ponto de vista totalmente dirigido para o aspecto comercial, parti para a pesquisa de informações que corroborassem meu ponto de vista, com o objetivo de, no mínimo, desencorajar pessoas que pensam dessa forma a alardear irresponsavelmente habilidades que definitivamente não possuem, com o interesse único de ganhar dinheiro. Por outro lado acredito também que a divulgação de informações bem fundamentadas, como passo a fazer agora, deve restringir a facilidade com que muitas pessoas se auto denominam guia de montanha.
 

ESTADOS UNIDOS
 

O clube The Mountaineers, de Seattle (Washington - EUA), edita o manual mundialmente reconhecido como texto chave para cursos de montanhismo, o Mountaineering - The Freedom of the Hills (Montañismo - La Libertad de las Cimas). Pré requisitos para ser guia do clube The Mountaineers:
 

- Saber tudo, de cabo a rabo, do livro "Freedom of the Hills", publicado e usado no próprio clube. Ou seja ter concluído o curso Básico/Intermediário/Avançado oferecido pelo mesmo;
- Ter guiado numero determinado de montanhas de varias modalidades: rocha, alpina, gelo e alta montanha. Veja que a escalada alpina significa que você tem que estar preparado para tudo inclusive para uma mistura de modalidades (neve, gelo e rocha) e geralmente os caminhos para chegar ao objetivo são bastante longos e árduos.
- Dar aula em todas as aulas praticas do curso básico que envolve técnicas em rocha, alpina e glaciar;
Guiar cordadas em número determinado de escaladas para grupos de estudantes de escaladas básicas;
- Ser guia assistente em varias escaladas;
- Tirar curso de primeiros socorros em montanha de 3 em 3 anos;
- Submeter, por escrito, o currículo de montanhismo à uma mesa de integrantes chave do clube que decidem se o candidato tem capacidade de se tornar guia ou não.
 

INGLATERRA
 

De acordo com a British Mountain Guides Association, para começar o treinamento de guia de montanha o candidato precisa ter um alto nível de habilidade e experiência em montanha. O candidato irá precisar de dedicação, tempo e também terá que gastar uma quantia razoável até ser qualificado. Pré requisitos para ser guia da British Mountain Guides Association:
 

- Ter pelo menos 22 anos de idade, apresentar atestado médico e certificado de um curso de primeiros socorros, com ênfase em montanha;
- Informar detalhes de sua experiência em alpinismo na Grã-Bretanha por um período de pelo menos cinco anos, incluindo: pelo menos 50 escaladas multi enfiadas guiadas de grau 5ºC ou superior;
- Vias técnicas guiadas de 5ºC ou superior;
- Pelo menos 50 escaladas em neve e gelo, de Grau III ou superior, das quais 20 devem ser Grau IV ou V (essa graduação mede o nível de comprometimento em escaladas de neve e gelo. O Grau III vale para escaladas longas de um dia com possibilidade de avalanche e necessidade de construir bases para rapel. O Grau V indica escaladas longas em locais remotos, em altitude e com real exposição à avalanche);
- Histórico de montanhismo em geral incluindo caminhadas, alpinismo e experiência de acampamento;
Informar detalhes de experiência de montanhismo alpino por um período mínimo de quatro anos, incluindo: conhecimento de várias áreas de escalada alpina (pelo menos três das quais na Europa);
- 20 ascensões de cumes principais;
- Experiência em rocha, neve, gelo e rotas mistas;
- Informar detalhes de habilidades em esqui. Espera-se que os candidatos esquiem em bom estilo, demonstrando equilíbrio, postura e controle;
- Apresentar pelo menos duas referências por escrito, uma das quais deve ser de um guia qualificado. O guia deve estar preparado a orientar o candidato durante o treinamento. A outra referência deve atestar o bom caráter do candidato;
- Pagamento da taxa de inscrição.
 

E isso é só o começo ...
 

Passando pela fase classificatória o candidato a guia iniciará o treinamento que, resumidamente, seria o seguinte:
 

1. Na condição de Candidato:

- Apresentação;
- Aceitação do candidato;
- Treinamento prático de verão e curso de teoria geral;
- Avaliação de verão;
- Conquista do status de Trainee.
 

2. Na condição de Trainee:

- Treinamento de inverno;
- Avaliação de inverno;
- Conquista do status de Aspirante, com direito a livro de registros.
 

3. Na condição de Aspirante:

- Treinamento alpino de verão;
- Aprendizado alpino de verão, com acompanhamento de um guia formado;
- Avaliação alpina de verão;
- Treinamento e avaliação de avalanches;
- Treinamento e avaliação de esqui de montanha;
- Conquista do status de Guia Formado.
 

4. Na condição de Guia:

- Treinamento em serviço (2 dias a cada 5 anos) em bases, estações ou refúgios.
 

Mesmo sem ter me estendido na pesquisa internacional (consultando, por exemplo, italianos, suíços, etc.), dei-me por satisfeito. Acredito que as demais instituições européias devem seguir um esquema parecido com o dos ingleses, que me pareceu muito completo e exigente.

Respeitadas as diferenças, assim é a formação dos guias nos principais clubes de montanhismo do Brasil:
 

BRASIL
 

No Rio de Janeiro, onde o esporte é mais antigo e ativo, além dos diversos clubes (Brasileiro, Rio de Janeiro, Carioca, Petropolitano, Teresopolitano, Light, Guanabara, ...), associações e escolas de escalada, existe a FEMERJ (antiga Interclubes) que congrega todas essas entidades. Consultei a todos e passo, a seguir, um resumo das respostas que obtive:
 

FEMERJ (Federação dos Esportes de Montanha do Estado do Rio de Janeiro)

Está trabalhando na confecção de currículos mínimos para curso de guia e curso básico visando melhorar e uniformizar a formação do pessoal, uma vez que no Rio existem diversas "escolas" (leia-se "estilos", ou "ênfases") na formação de guias e de montanhistas em geral. A idéia é que esse trabalho sirva de base para uma nova discussão visando a sua melhoria, o que já está previsto no calendário da entidade. Esse esboço preliminar de currículo enfoca:

- Técnicas básicas de escalada: cordas e nós, sistemas de segurança, equipamentos, rapel, etc;
- Orientação e mapas: topografia, bússola, GPS, etc;
- Primeiros Socorros;
- Logística: alimentação, equipamentos, meteorologia, avaliação dos participantes, transporte, etc;
- Técnicas de Resgate: roldanas e blocantes, içamento, tirolesas, macas, etc;
- Técnicas de escalada livre e artificial: proteções fixas e móveis, equalização, estribos, técnicas de ascensão em corda;
- Conquistas: avaliação do impacto ambiental, avaliação da graduação, critérios de colocação de grampos, estilo, etc;
- Ecologia básica;
- Ética no Montanhismo;
- Técnicas e critérios para abertura de trilhas.
 

O currículo prevê ainda duas categorias: guia de caminhada e guia de escalada, com diferentes critérios para qualificação desses tipos. O guia de caminhada deve realizar caminhadas e travessias de todos os graus, com e sem bivaque, guiar vias até 2º grau e participar até 3º grau, o guia de escalada deve poder atender a todas as exigências do guia de caminhada e, além disso, guiar vias até 4º grau.
 

CEB (Centro Excursionista Brasileiro)

O mais antigo dos clubes de montanhismo do Brasil, não há normas ou currículo formalizado. Para CEB, o guia de caminhada não realiza excursões de escalada, mas deve conhecer as técnicas de escalada e ser capaz de guiar até o 3º grau. Já o guia de escalada recebe o título de guia de escalada e caminhada e neste último curso, especificamente, os candidatos a guia deveriam ter condições de guiar no mínimo 4º grau. O candidato a guia é indicado pelo próprio Corpo de Guias do CEB. O curso foi montado tentando enfocar sempre a responsabilidade e a segurança, não importando o grau que o guia consegue escalar, mas sua capacidade para conduzir uma excursão e seus participantes com a maior segurança possível, trazendo-os de volta sãos e felizes. Nas palavras do coordenador do curso, Arthur Costa da Silva, "um guia consciente não pode se aventurar com participantes em vias mais difíceis colocando-os em risco desnecessário. Não sou contra a aventura, acho que ela deva até existir e está no sangue de todo o montanhista, mas o guia tem que saber a hora certa e com as pessoas certas. Este é um ponto crucial, de vital importância".
 

CEP (Centro Excursionista Petropolitano)

De acordo com a montanhista Lis Maria, no CEP, existem cursos de guias a cada 2 anos. Os guias formados pelo CEP são bem capazes no que se refere à escalada, porém a formação é incompleta quanto a problemas de mínimo impacto, orientação com mapas e previsões meteorológicas. Os clubes cariocas juntamente com o CEP tem tentado melhorar isso, convidando instrutores como Garrido (medico, fuzileiro, escalador e conquistador de inúmeras vias), André Ilha, Flávio Wasniewski (cartógrafo), meteorologistas, pesquisadores e outros escaladores, bem como o Sérgio Tartari, para aulas extras. Mesmo assim a Lis entende que ainda falta muita coisa, entre outras uma avaliação no final do curso: "Não é cobrada prova do que se aprendeu, nem é requerido estágio prático do guia."
 

CAP (Clube Alpino Paulista)

De acordo com o atual presidente do clube, Marcelo Krings, "o Clube Alpino Paulista foi fundado em 1959 com a finalidade de conferir a montanhistas o título de guia de montanha. Nestes 40 anos o CAP formou 36 guias, dos quais 16 estão em atividade e 25 aspirantes a guias, dos quais metade ainda ativos aguardando serem promovidos a guias. Mesmo sem uma regulamentação brasileira, seguindo normas européias e outras adaptadas à nossa realidade, é muito difícil tornar-se um guia de montanha em um clube como o CAP. Os guias do CAP são reconhecidos como guias na Argentina, tanto que os cursos de gelo que são oferecidos pelo CAP em Bariloche têm a concordância dos clubes e da Intendência de Parques Nacionais."
Analisando os diversos currículos percebe-se que cada entidade impõe seu estilo ao guia formado sob suas hostes. Esse estilo tem a ver com a localização geográfica e com a visão que a entidade tem do montanhismo. No Rio, com a abundância de rochas para se escalar, os clubes tendem a se concentrar na escalada de rocha como "eixo" de formação. Já na Europa e nos EUA existe maior preocupação em dar uma formação mais abrangente, envolvendo rocha, neve, gelo, escalada alpina, resgate e primeiros socorros.
 

Diante disso, acredito que deveríamos procurar estabelecer pelo menos dois níveis de currículo para guias de montanha no Brasil: o guia de montanha nacional e o guia de montanha internacional. O primeiro, naturalmente, seria o guia apto a enfrentar todas as condições previstas em montanhas dentro do Brasil. O segundo, acrescentaria a essa formação, os quesitos técnicos e a experiência para enfrentar montanhas nevadas em geral mais os problemas da altitude, o que o habilitaria a ser reconhecido por organismos internacionais, como a UIAGM (União Internacional das Associações de Guias de Montanha).


Observei que nos cursos brasileiros, geralmente, dá-se muita ênfase aos aspectos técnicos da escalada, sem dúvida importantíssimos, em detrimento de matérias não menos importantes, como liderança, situações de emergência, relacionamento interpessoal, enfim, aspectos mais subjetivos mas que fazem muita diferença no resultado final de uma expedição à montanha. Os guias franco-suíços, só para citar um exemplo conhecido, são famosos por sua lealdade ao cliente. Segundo versão divulgada por pesquisa histórica recente, na conquista do Annapurna, a primeira de uma montanha acima de 8.000m, Lachenal (guia de Chamonix companheiro de Lionel Terray) só não abandonou Maurice Herzog durante o ataque final ao cume devido a esse sólido preceito.
 

É bom lembrar que esse trabalho se restringiu a guias de montanha e, de propósito, não entrei na discussão mais ampla da profissão de guia em geral, que englobaria o guia turístico, o guia ecológico e outros profissionais não exatamente especializados no ambiente "montanha". Para dar continuidade a essa discussão, que considero aberta, convido os interessados a refletir sobre o assunto, tendo em mente que:
 

1. Devemos enxergar a profissão de guia de montanha como uma atividade extremamente especializada que depende de uma formação técnica e prática extensa, treinamento e reavaliações freqüentes tão, ou mais, exigente quanto as demais profissões de responsabilidade direta sobre a vida humana, como medicina, engenharia, etc;

2. A comunidade dos Montanhistas do Brasil deve se unir em torno de suas entidades e instituições para gerar um processo formal de treinamento, formação e avaliação de Guias visando futuro reconhecimento nacional e internacional do guia brasileiro como profissional sério, competente e com profissão regulamentada, da mesma forma que médicos, dentistas, engenheiros, etc.

 

Silvério Nery