Fogueiras.

 

Os guias do CEG, revoltados com o tratamento dado à questão das fogueiras na seção de cartas da Revista Néz Adventure (nº 26), numa iniciativa dos montanhistas Mário Senna e Beto, redigiram e enviaram ao editor da revista a seguinte carta.

Sr. Leopoldo,

É com muita apreensão que estamos acompanhando a controvérsia sobre as matérias veiculadas na Néz Adventure ensinando técnicas de ignição de fogueiras (revista nº 25) e recomendando sua utilização em acampamentos (revista nº 23).

Há muito tempo as fogueiras foram banidas dos acampamentos de montanhistas responsáveis. A despeito de seu apelo "romântico" e da diversão que elas proporcionam, o preço pago pelo risco e pelos danos causados por fogueiras é muito alto: incêndio da vegetação (vide o último que devastou 1000 ha em Itatiaia) e de barracas, destruição do solo, consumo de matéria orgânica (lenha) importantíssima em ecossistemas frágeis.

Mesmo a utilização de fogueiras em situações emergenciais de sobrevivência é questionável. O montanhista responsável e bem preparado nunca precisará fazer uma fogueira, terá um fogareiro leve para cozinhar, agasalho, anorak, saco de dormir, manta térmica para se aquecer, lanternas para iluminar seu acampamento e sinalizar por socorro. Na falta de alguns desses equipamentos, há técnicas utilizadas em bivaques emergenciais que improvisam anoraks, agasalhos e sacos de dormir.

Outra questão importantíssima é a definição de "situação de emergência". Mesmo que se admitisse a fogueira para sobrevivência, como poderá o leigo julgar quando deverá acendê-la? É comum confundir desconforto com emergência, como bem se pode ver na carta de um leitor publicada na revista nº 26. Passar uma noite sem comida quente, ou dormir com roupa úmida em saco de dormir úmido pode não ser muito agradável, mas não mata ninguém, tampouco coloca em risco qualquer vida. No caso de Itatiaia, por exemplo, os rapazes entenderam como emergência o fato de estarem perdidos de dia, há menos de 1 hora. Bom senso é relativo, não se pode esperar que todos sejam sensatos.

Acreditamos que as matérias da Néz Adventure sejam direcionadas tanto para excursionistas experientes quanto para leigos interessados em saber mais sobre os esportes praticados ao ar livre. Dessa forma, é de se atribuir à revista uma grande responsabilidade pela educação ambiental de seus leitores, devendo promover a disseminação de técnicas e práticas preservacionistas antenadas com princípios éticos internacionais de mínimo impacto. Recomendamos aos colunistas da Néz Adventure a leitura da bibliografia atualizada e reconhecida no meio do montanhismo, como "Mountaineering - The Freedom of The Hills", da Editora The Mountaineers; as Revistas "Fator 2", publicadas pelo Flávio Daflon e pela Cíntia Adriane; a cartilha de práticas de mínimo impacto do Leave No Trace; o Código Internacional de Montanha da UIAA; o folheto de práticas de mínimo impacto elaborado pelo Ministério do Meio Ambiente em conjunto com o Centro Excursionista Universitário; além dos boletins dos clubes e centros excursionistas como o CEG, CEC, CEB, CERJ e CEL.

Atenciosamente,

 

Frederico Yasuo Noritomi
Diretor Técnico do Centro Excursionista Guanabara.