Eliseu Frechou, o homem das montanhas.

 

Muitos moradores de um município do interior de São Paulo ainda não conseguem entender muito bem a profissão do morador que elegeu a cidade há 12 anos como melhor lugar para viver. Eliseu Frechou nasceu em Curitiba, conheceu o alpinismo aos 15 anos e hoje, este ariano de 33 anos, mora em São Bento do Sapucaí, cidadezinha simpática e acolhedora, dona de um complexo rochoso de impor respeito: a Pedra do Baú. Apaixonado pela cidade e pelas montanhas, Frechou não se limitou à escalada. Sua escola Montanhismus, seu jornal Mountain Voices, editado há 10 anos, e agora sua Revista Headwall propagam o esporte e amadurecem o conceito do alpinismo brasileiro.

 

Como começou a paixão pelo alpinismo?
 

Quando eu tinha 15 anos fui ver uma demonstração de escalada no Pico do Jaraguá, em São Paulo, e daí em diante não parei mais de ir à montanha.

 

Como aconteceu a sua mudança para São Bento do Sapucaí? Há quantos anos?
 

Estou em São Bento há 12 anos. Em 89 achei que já era tempo de mudar de São Paulo, cidade em que fui criado e vivia até então, e partir para um estilo de vida mais saudável que tivesse espaço para o montanhismo. A escolha por São Bento do Sapucaí se deu primeiro pela situação geográfica, bem debaixo da Pedra do Baú e cercada de outras falésias e montanhas ainda por explorar, e segundo por ser uma cidade que ao mesmo tempo é pequena, mas oferece boas condições de infra-estrutura.

 

Muitos alpinistas se destacam apenas pelas conquistas e pela publicidade em cima delas, no seu caso é também pelo empenho no dia-a-dia voltado para o esporte. Você se sente realizado no alpinismo?


Sim e não. Sinto orgulho do meu currículo - duas ascensões importantes no El Capitan ("Zenyatta Mondatta" e "Plastic Surgery Disaster"), a conquista da "Solução Suicida" no Kaga-Tondo, "Neurônios Fritos", a 1ª repetição da "Terra de Gigantes"... além de uma infinidade de boulders e mais de 140 vias conquistadas. Escalar para mim é muito importante, mas vejo a necessidade e a possibilidade de fazer outras atividades importantes para o desenvolvimento do esporte, como o Mountain Voices e a Escola, que é um centro propagador de conhecimento. Tenho nos últimos 3 anos me mantido ocupado em também aprender coisas novas, como os vídeos que mostram um pouco da escalada em nosso país em uma linguagem moderna, ou o Festival de Escalada BloX que trouxe mais de 400 pessoas em agosto passado a São Bento do Sapucaí para conhecer um novo point de escalada. Estes são projetos que me deram muito prazer em realizar - talvez tanto quanto fazer uma grande escalada. Todavia estou embrionando para este ano novos projetos de big wall que quero por enquanto manter em segredo.

 

Sobre a idéia de montar a escola Montanhismus, como ela foi recebida na cidade?
 

Acho que ainda hoje muita gente não entende o que eu faço.

 

Você forma mais de 100 escaladores por ano. Depois do curso eles têm capacidade para escalar que tipo de rocha?
 

Após o curso básico a pessoa está apta para escalar rotas grampeadas. A dificuldade vai depender de sua força de vontade e disposição para treinar.

 

Como são os treinamentos?
 

Os cursos básicos duram um final de semana, no qual a aluno é bombardeado de informação e fica na pedra praticamente os dois dias inteiros. Depois é só se dedicar.

 

Como são as pessoas que chegam até você querendo aprender escalada?
 

A maioria são pessoas que querem melhorar sua qualidade de vida fazendo um esporte ligado à natureza. Nos últimos anos tenho notado um significante aumento no número de mulheres interessadas no curso.

 

E você o que anda escalando ultimamente? Sabemos da sua conquista do El Capitan, na Califórnia. Teve alguma outra que te marcou?
 

Tenho escalado pelo menos duas vezes por semana aqui nas falésias perto de casa, sempre conquistando e procurando escalar mais forte. Após a escalada do El Capitan, pela "Plastic Surgery Disaster", que é a big wall mais difícil da montanha, tenho me dedicado mais à escalada livre.

 

Como foi a escalada do El Capitan? Quantos dias?
 

Foi uma escalada muito dura, tanto física quanto psicologicamente. Big Wall é uma engenharia muito complexa, com dezenas de detalhes em que um erro pode ser fatal. Como se já não bastasse a dificuldade em si, uma galera local ainda se incumbiu de ficar nos atazanando, dizendo que poderíamos morrer na escalada de nível A5. A escalada da "Plastic Surgery Disaster" durou 8 dias, sendo os 3 primeiros fixando cordas até a quinta enfiada, e os 5 restante em estilo cápsula, pernoitando em portaledges (camas rede).

 

Você não tem vontade de fazer grandiosas expedições em busca de picos desafiadores pelo mundo?
 

Sim, claro! Todavia isso requer investimentos em patrocínio que grandes empresas brasileiras ainda não estão preparadas para fazer. Tenho uma grande preocupação com a ética, com os meus companheiros, com o que vai ser passado para o público. Não estou disposto a um vale tudo por dinheiro, que é o que se vê por aí.

 

Qual o seu maior desafio?
 

Conciliar família e trabalho de uma maneira equilibrada.

 

Como você divide seu tempo entre os treinamentos, a escola, o jornal, vídeos e agora a Revista Headwall?
 

É complicado, mas chamei toda a responsabilidade e agora tenho que dar conta (risos). Digamos que como em São Bento do Sapucaí não existem congestionamentos, tenho mais tempo para cuidar de tudo e ainda ir dormir cedo. Outra coisa que ajuda é que tenho pessoas competentes envolvidas nestes projetos.

 

Quem são os idealizadores da revista?
 

O Filippo Croso e eu. Mas eu gostaria - e é necessário - que toda a comunidade excursionista abraçasse este projeto, pois somente assim ele irá vingar. Quero acreditar que somos apenas as pessoas que assumiram a responsabilidade de imprimir a verdadeira revista de montanha brasileira.

 

O que você espera do alpinismo como esporte no Brasil?
 

A geografia do Brasil garante a prosperidade do esporte em nosso país, basta que cuidemos de nossas montanhas.

 

O Rio de Janeiro é um centro outdoor da prática de escalada. Como você acha que o esporte poderia se popularizar mais? Paredes de escaladas são vistas em festas e eventos, na TV. Qualquer pessoa pode subir aquelas paredes, se entusiasmar e seguir direto para a rocha natural... É um risco para iniciantes?
 

Sim, um grande risco! Até mesmo a escalada indoor pode ser fatal caso não se tomem todas as medidas de segurança. A escalada em rocha é um esporte de aventura que tem seu risco relativamente controlado por uma série de técnicas aprendidas em cursos no qual o aluno é conduzido por um instrutor experiente até se tornar auto-suficiente. Deixar de fazer um curso de escalada é como aprender a dirigir na via Dutra.

 

Qual a melhor maneira de começar neste esporte?
 

Procurar instrução com um guia capacitado ou em uma escola reconhecida.

 

Eliseu Frechou

Montanhista.