Acompanhamento de guias.

 

Seguem aqui alguns tópicos que, a meu ver, servem para ajudar na discussão sobre a obrigatoriedade do acompanhamento de montanhistas (praticantes do esporte) por guias especializados:

 

1. Segundo ambientalistas, grande parte dos brasileiros acha que praticar o ecoturismo é viajar para um local onde a natureza é exuberante. As pessoas precisam se preocupar com outros fatores como por exemplo: se a pousada ou hotel que ficam nestes locais polui, se as pessoas da comunidade local estão ganhando com o turismo e se estão explorando a área de uma forma ecologicamente correta, ... Desde a Eco-92 as discussões, que continuaram acontecendo dentro de escritórios, culminarão no encontro histórico das mesmas nações na Rio+10 em agosto próximo. No entanto, apesar da preocupação rondar os escritórios de ONGs e ministérios de meio ambiente de vários países, a grande maioria da população mundial ainda não tomou consciência dos princípios de preservação ambiental definidos há uma década. No Brasil não é diferente. Órgãos do governo e diversas ONGs (em grande maioria internacionais) se desdobram para, aos poucos, implantar o desenvolvimento sustentável em áreas e comunidades que necessitam dele para sobreviver preservadas. Mas muitas vezes o projeto falha porque a grande população o ignora. A alienação dos brasileiros levou ao desprezo de projetos desenvolvidos por estas ONGs no país.

 

2. Os recursos naturais da Terra estão sendo utilizados mais depressa do que o planeta pode renová-los, diz estudo publicado na revista da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos. Os pesquisadores calculam que a demanda começou a superar a oferta de recursos há cerca de 20 anos. O aumento no consumo de energia seria o fator de maior contribuição para a dilapidação dos recursos. O estudo enfocou diversas áreas da atividade humana: agropecuária exploração das florestas, pesca marinha, uso de terrenos para a construção de edificações e utilização de energia a partir de combustíveis fósseis. Os cientistas concluíram que há 40 anos a humanidade utilizou 70% da capacidade da biosfera da Terra. Desde 1999, a economia está absorvendo 120% da capacidade produtiva do planeta.

 

3. A revista New Scientist publicou nesta quarta-feira um novo estudo que relaciona o ecoturismo ao fim da vida selvagem. De acordo com a pesquisa, conduzida por cientistas do Parque Nacional Chobe, em Botswana, a prática pode estar ameaçando animais com a difusão de doenças humanas e seria o provável responsável por três surtos de tuberculose em fuinhas na África. Um deles causou a morte de animais no deserto Kalahari. O mesmo pode se esperar em outras áreas naturais que sofrem visitação.

 

4. Um estudo da Organizações das Unidas divulgado nesta quarta-feira, o denominado GEO-3 (sigla em inglês para Global Environmental Outlook), revela que um quarto dos mamíferos do mundo corre o risco de extinção nos próximos trinta anos. Foram identificadas 11.046 espécies de plantas e de animais que estão em perigo. Estão incluídos nessas espécies identificadas pelos cientistas 1.130 mamíferos (24% do total) e 1.183 aves (12%). Foram também identificadas 5.611 espécies de planta que estão ameaçadas de extinção. Segundo o estudo organizado pelo PNUMA - Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, as atividades humanas, principalmente a destruição dos habitats e a introdução de espécies alienígenas de uma parte do planeta a outra, são a principal causa da perda da biodiversidade mundial.

 

Então o que se discute é o impacto da visitação. Esta é a real causa do movimento. Assim, se iniciativas de recuperação, como por exemplo o mutirão do Pão de Açúcar, necessita de chamadas freqüentes. Como as ONGs de montanhistas (clubes, associações e federações) vão comprovar que são especiais e não causam impacto ? Não será alguns poucos abnegados que ajudam no resgate nas montanhas que irá redimir e caracterizar toda a classe. Este assunto não pode ser discutido apenas como se fosse uma restrição à liberdade.

O que se cobra agora é, de fato, uma atividade preservacionista do montanhista. Já passou a época em que haviam florestas e montanhas infinitas para o nosso prazer. Hoje nossa atitude deve ser muito mais de preservar do que lutar apenas para continuar a causar impacto.
 

Creio que ajudaria muito a compreender este momento se cada um fizesse a si mesmo as perguntas:

- Neste ano, quantas atividades efetivas de preservação, conservação ou educação ambiental eu participei?

- Quantos projetos de conservação eu ajudei a concretizar ou a se manter ?

- Em relação à instituição a que pertenço, como está sendo a minha atuação de 1 a 10 pontos ?

 

Desta forma, enquanto os parques não viram desertos de pedras nuas, ainda temos tempo de escolher de que lado estaremos na preservação. Na verdade o mundo que conhecemos está morrendo. Já sabemos o que poderá vir, mas insistimos em acreditar que só a escalada numa rocha limpa e escovada importa e estamos esquecendo do resto da montanha.

 

Flávio Zen Mello
Montanhista