SLCDs.

 

Avanços técnicos ou tecnológicos sempre provocaram saltos quânticos nos níveis de escalada em rocha. A introdução de pitons, cordas de nylon e proteções móveis abriu terrenos novos e mais difíceis para os escaladores. Previsivelmente, essas inovações provocaram e animaram controvérsias voláteis entre os praticantes da escalada quanto à ética em sua utilização.

 

Em 1977, um escalador e então analista mecânico espacial chamado Ray Jardine provocou a mais recente controvérsia com um equipamento radicalmente inovador - o SLCD* que ele chamou de Friend. Jardine comentava sobre a polêmica em torno de sua invenção. Mas ele não se importou com as críticas. A única obsessão de Jardine era desenvolver uma técnica ou equipamento para concluir uma escalada. "Pessoas como John Bachar, Ron Kauk e Dale Bard poderiam escalar esferas em torno de mim", admitiu numa de suas últimas entrevistas para uma revista, "mas, provavelmente, fui mais focalizado."

 

Em 1973, Jardine percebeu que fendas de níveis mais altos exigiam uma proteção mais eficiente do que os tradicionais nuts poderiam proporcionar. Ele queria algo que permitisse uma colocação e remoção rápidas, que fosse manejado só com uma mão e, mais importante, algo que funcionasse em fendas paralelas. Bill Forrest, um amigo que fabricava equipamentos para montanha, liberou sua oficina para que fossem construídos alguns protótipos. Jardine criou-os em uma noite e, no dia seguinte, testou-os na rocha. Uma série de falhas levaram-no ao centro de computação da Universidade de Colorado, onde foi aperfeiçoado o ângulo e a curva das peças excêntricas e decidido o uso da liga de alumínio 7075-T6 por sua capacidade de sofrer torção sem quebrar-se ou deformar-se. Depois disso, Jardine dirigiu-se para um local onde seus novos Friends realmente fariam diferença: as fendas verticais de Yosemite. Lá ele não era um estranho. Já tinha aberto várias vias de 5.12 (8a no Brasil), usando proteção tradicional, além de ser bem conhecido por fazer o reconhecimento de possíveis vias.

 

 

Em 1976, perto de Cascade, ele e Ron Kauk tinham encontrado uma via em potencial e trabalharam-na em seguida. Após várias tentativas e um progresso de apenas 4 metros em uma fenda paralela e estreita (na medida para dedos e mãos finas), Kauk desistiu. Mais tarde, Jardine retornou com seus friends altamente secretos. Descansando em seus novos aparelhos em meio às quedas (uma prática que tornou-se conhecida como hang dog) escalou os 36,5 metros de árduos movimentos. Em sua oitava visita, Jardine começou do chão e, eficientemente, costurando em seus Friends, guiou a sofrida Crimson Cringe (5.12, 8a no Brasil), um dos clássicos do vale de Yosemite. No ano seguinte, Jardine apontou suas armas secretas para uma difícil fenda numa parede em ângulo levemente negativo, escondida acima de Cascade. "Eu sabia que isto significava um novo nível", diz Jardine. Impossível para nuts e uma das mais bonitas e perfeitas fendas do vale. Era o teste perfeito para os Friends e para Jardine. Ao longo de vários dias Jardine ia, árdua e lentamente, escalando a fenda, finalmente sendo bem sucedido ao ligar um lance chocantemente exaustivo e sacolejante, criando a via mais difícil em Yosemite na época: The Phoenix (5.13a, 9b no Brasil) foi comprometida somente pelos vários alargamentos da fissura do diedro inicial, feitos por Jardine.

 

Jardine pediu segredo aos seus parceiros, mas as notícias de seus aparelhos de peças excêntricas logo começaram a vazar. Muitos queriam usufruir das vantagens dos Friends, mas Jardine estava relutante em dividir sua idéia tão rapidamente. "Eu não podia liberar os Friends para o domínio público antes de licenciá-los a um fabricante", explica. "Não que estivesse particularmente procurando um." Assim, Jardine escalava com seus mágicos aparelhos, estabelecendo numerosas conquistas, sem que ninguém pudesse adquiri-los, causando muito ressentimento. Dois anos mais tarde, Jardine viajou para a Inglaterra onde encontrou uma empresa para produzir seus aparelhos. Quando voltou a Yosemite, já tinha Friends para vender em sua van por US$17,50, o que ajudou a diminuir o ressentimento. As vantagens desses novos aparelhos de proteção móvel foram logo percebidas pelos escaladores.

 

 

Dale Bard usou um Friend nº 2 numa cavidade rasa, aberta pelo uso de piton, em uma fissura na via Horse Chute no El Capitan, colocando 2 Friends dentro e as outras duas fora da cavidade. No Cerro Torre, Patagônia, Jim Bridwell confiou sua vida num Friend colocado numa fenda de granito cheia de gelo e que alargava para fora. Eram os equipamentos ideais para a Elephant's Eliminate de Jardine, uma fenda num teto que também alargava- se para fora: o exemplo perfeito de escalada impossível de ser protegida com os tradicionais pitons e nuts.

 

Jardine parou de escalar em 1981 por possuir outros interesses. Navegou pelo mundo num veleiro de 41 pés antes de partir para longas caminhadas. Mais tarde, mudou para a prática de caiaque no mar. Ironicamente, o que irrita Jardine até os dias de hoje é a dificuldade dos escaladores em possuir um jogo completo de Friends. "Este tipo de equipamento é ridiculamente barato de se construir", afirma. Sempre disposto a por lenha na fogueira, Jardine sugere: "Talvez eu devesse escrever um artigo dizendo como fazê-los."

*SLCD = Spring Loaded Camming Devices - Classe de aparelhos com peças móveis e excêntricas (não possuem o mesmo centro), montadas sobre um eixo e ativadas através de molas. Também são denominados cam.

 

Revista Climbing nº 174.
Tradução: Paulo Miranda.