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Nos anos 50 pouco importava o grau de
dificuldade que você conseguia escalar, você só escalaria com pesadas
botas de couro que, embora fossem excelentes proteções para os pés, pouco
auxiliavam quando a verticalidade da parede era mais acentuada.
Inventado durante a segunda guerra mundial
pelo sapateiro e montanhista Pierre Alan e considerado o equipamento mais
importante utilizado em uma ascensão, o calçado de escalada, além de ser
mais leve do que as botas tradicionais, possibilitam:
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Aderência – através da tecnologia empregada na fabricação
dos compostos que formam as solas (ex: Stealth, Fusion e Vibram).
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Proteção – nas escaladas de fendas.
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Precisão – pois possuem: ponta estreita, auxiliando na
pisada em pontos de apoio minúsculos e a forma côncava, que se adapta
melhor ao pé e o calcanhar reforçado, facilitando a escalada de negativos
e tetos.
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Sensibilidade – para que o escalador possa sentir cada
saliência e reentrância que a rocha apresentar.
Características:
As
sapatilhas são, basicamente, confeccionadas de
camurça e possuem:
- Solado e cabedal revestido com
borracha especial (aderente).
- Fechamento
com elástico, borracha, fita ou cadarço.
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Loop (anel de fita) que serve para auxiliar na hora de vestir e
para pendurá-las quando não estiverem sendo utilizadas.
Modelos:
Dividem-se em três grandes grupos:
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Eu estava
em City of Rock (Idaho - EUA) escalando com um amigo americano e quando
fomos para a base de uma outra torre de granito para escalar, encontramos
uma dupla de escaladores que falava uma língua muita estranha,
percebia que era do Leste Europeu. Mas a minha surpresa foi quando eu
olhei para os pés de um dos escaladores. Eu comecei a rir porque
o cara era da antiga Tcheco-eslováquia e escalava com um Kichute,
exatamente da mesma forma que nós fazíamos aqui nos anos
70 e 80. As travas eram cortadas para a sola ficar lisa e ter uma área
de contato maior com a rocha, e assim aumentar a aderência. Muito
curioso, eu fui conversar com o sujeito.
Perguntei: - Você escala com isto?
O cara respondeu, rindo: - Antigamente nós usávamos este
calçado para escalar na Tcheco-eslováquia porque não
tínhamos acesso ao material importado por causa do comunismo,
mas hoje em dia não usamos mais, eu uso este par só de
"onda".
O modelo que ele usava era uma cópia perfeita do Kichute brasileiro
e eles o adaptaram para escalar, mas originalmente usavam para jogar
futebol exatamente como nós. Eu perguntei para o meu amigo, que
conhecia um pouco do Brasil:
- Será que os tchecos copiaram a idéia dos brasileiros
ou os brasileiros copiaram os tchecos ou foi uma bizarra coincidência?
Os dois países tinham duas coisas em comum: uma era a dificuldade
de conseguir material de fora do país (lá por causa do
comunismo e aqui por causa do "durismo") e a outra era o Kichute.
Mas a história do material de escalada no Brasil vai mais longe.
Até 1981, praticamente não existia no Brasil botas de
escalada, magnésio ou outros equipamentos que conhecemos hoje.
Todos queriam ter botas de couro rígidas que usualmente eram
utilizadas para adaptar crampon para escalar em gelo. Tentávamos
copiar o máximo o estilo europeu e como não tínhamos
acesso ao equipamento importado e nem dinheiro (o valor do dólar
era muito alto na época), fazíamos as nossas improvisações.
Mas na época, mesmo na Europa que era o grande centro de escalada,
o material não era tão avançado, os equipamentos
mais sofisticados estavam começando a ser desenvolvidos.
Na década de 50 alguns brasileiros utilizavam a bota cardada,
isto é, alguns caras colocavam alguns tipos de pregos na sola
da bota para tentar imitar o crampon, só que aqui era para escalar
na rocha!!! Nas décadas de 60 e 70 alguns usavam sapatilhas feitas
de pano e sola de corda de sisal, elas eram conhecidas por alguns como
Chinapau (elas ainda existem), mas a sola desfiava e acabava rapidamente.
No final da década de 70, depois de experiências com diversos
tipos de calçados, chegou-se a conclusão de que o Conga
era o melhor, aderia mais e funcionava como uma sapatilha. Logo depois
alguém teve a idéia de tirar as travas do Kichute, que
logo se tornou popular para escalar, até que o fabricante mudou
a composição da borracha, tornando-a menos aderente. A
alteração foi sensível e alguns voltaram a usar
o Conga. No Brasil, as primeiras botas próprias para escalar
em rocha começaram a chegar por volta de 1978, mas apenas uma
ou duas pessoas possuíam. Os primeiros modelos ficaram sendo
conhecidos como PA, que eram as iniciais de Pierre Alain, que foi quem
as desenvolveu.
Posteriormente chegaram as do modelo EB. Mas na época
as botas eram chamadas de Varape (era um tipo de bota, mas que aqui
acabou sendo uma denominação comum utilizada para todas
as outras). Era o máximo ter um par de EB nos pés, alguns
diziam que a sola grudava na rocha como chiclete. É claro que
as comparações eram com o Kichute. Mas só quem
tinha dinheiro e podia viajar para fora podia comprá-las. Não
eram vendidas no Brasil. Aliás, na época existiam pouquíssimos
escaladores ativos por aqui, eram estimados algo em torno de 500 e apenas
uns 10 raramente viajavam para a Europa. O escalador que viajava para
fora era muito invejado. Antes de usar Conga eu escalava com uma bota
feita para motociclista. Em 1983, escalei no Rio com o suíço
Roman Vogler, que era um dos feras da Europa na época e ele ria
quando olhava para as minhas botas de motociclista.
Um belo dia, alguém apareceu com uma Fire (primeiro modelo da
Boreal), isso foi em 1983 ou 1984. Logo veio a fama de ser uma bota
mágica, porque "grudava" na rocha. Realmente a sola
era muito boa, os espanhóis tinham inventado a goma cozida para
solados. Foi uma tremenda evolução. O reinado da Fire
durou vários anos (na Europa, nos EUA e no Brasil), até
que outros modelos surgiram da própria Boreal e da La Esportiva.
Logo depois da Fire, a Boreal lançou as sapatilhas Ninja e se
tornaram grande sucesso. O problema é que elas gastavam rápido
e era difícil comprá-las. Alguns tinham botas mas não
as usavam porque tinham medo de gastar a sola e não ter como
ressolar. Alguns conseguiam pedaços de sola e mandavam para o
sapateiro colar. Uma vez o Marcelo Braga foi à Espanha e trouxe
muitos quilos de rolos de borracha da Boreal. Outros faziam a própria
ressola, mas economizavam os pedaços. Ou seja, colavam com Superbond
pequenos pedacinhos somente onde era necessário, fazendo parecer
uma colcha de retalhos. Era espantoso ver as solas das sapatilhas velhas
de alguns escaladores cariocas cheias de quadradinhos desiguais, às
vezes em forma de triângulos, alguns descolando.
Logo depois que
a Fire e a Ninja apareceram, o conceito de escalada de aderência
mudou por aqui. Antigamente algumas escaladas de agarras eram consideradas
de aderência, mas depois que abriram as vias do Sumaré
(Rio) é que realmente o pessoal entendeu o que era aderência
e o que era a supremacia dos calçados da Boreal. Nunca mais esqueço
a minha felicidade quando comprei a minha primeira Fire. Usei tanto
que quando um dos lados gastou, comecei a usá-las de pés
trocados, só para aproveitar o outro lado menos gasto. Machucava
muito, mas funcionava. Finalmente, nos anos 90 chegaram as botas Five-Ten
com solados Stealth.
No Paraná, em 1986, a Natisnake (hoje conhecida como Snake) lançou
a sua própria bota que tinha uma sola muito boa, mas o corpo
era muito desengonçado e não tinha pé esquerdo
ou direito, tanto fazia em que pé você calçava.
Mas eram boas. Hoje o próprio Snake deve rir do modelo que ele
e o Nativo produziram de forma artesanal. Mas valeu o esforço
porque depois disso a produção evoluiu, basta ver a qualidade
do material atual.
Até a década de 70, muitos escaladores usavam cordas de
sisal ou cordas náuticas e não existia o baudrier (cadeirinha),
a corda era amarrada na cintura. Um acidente que ficou na história
foi a morte da Marizel, na Pedra da Gávea, que caiu e morreu
por asfixia porque ficou pendurada com a corda esmagando sua cintura.
No início da década de 80 já eram fabricadas cadeirinhas
aqui no Brasil e algumas cordas importadas começaram a chegar.
Antes era comum o uso de cordas náuticas, alguns usavam a corda
Argentina Marasco que era vermelha e duríssima. Essas cordas
não tinham elasticidade e por sorte, eram raríssimas as
vezes que o escalador tinha queda livre porque a escalada esportiva
ainda não havia sido desenvolvida. Normalmente o escalador caia
quiando ou rolando nos "paredões positivos" e isso
diminuía a velocidade da queda e o tranco que recebia no final.
Lembro de começar a escalar com uma corda náutica super
rígida de 10 mm por 30 metros de comprimento. Muitas vezes as
cordadas eram de três pessoas e só tínhamos poucos
mosquetões. Quando comprei a minha primeira corda importada a
felicidade era tanta que na primeira semana dormia com ela na minha
cama. Estranhamente até hoje eu posso sentir o cheiro dela.
A maioria dos escalador usava material dos clubes e os mais afortunados
tinham cerca de 10 mosquetões. Para costurar era colocado apenas
um no grampo, não se usava fitas. O atrito era insuportável.
No começo da década de oitenta começou-se a usar
fitas longas para costura. A gente passava uma ponta de uma fita dobrada
por dentro do grampo e com um mosquetão prendíamos as
duas pontas. A corda era passada dentro desse único mosquetão.
A segurança consistia em passar a corda pelo ombro e por debaixo
do braço e para rapelar, usávamos um cilindro de alumínio
conhecido como Magnone. Hoje a Mônica Pranzl me perturba para
eu comprar um Gri-gri e eu respondo: - Pô, quando eu comecei a
escalar a gente dava segurança de ombro, hoje vocês ficam
com essas frescuras de Gri-gri
(risadas).
Concomitantemente à chegada das primeiras botas de escalada do
tipo EB veio o magnésio, que ajudou muito na evolução
do esporte por aqui. Mas no início, como era novidade, o produto
foi muito criticado pelos tradicionalistas.
Por volta de 1983, os escaladores que assistiram o filme 007
(eu
não lembro do título), acharam uma grande mentira porque
o James Bond colocou dentro de uma fenda uma peça metálica
que abriu, ficando presa milagrosamente e salvando-lhe a vida. Era o
Friend, que ninguém conhecia por aqui. O comentário era
um só: - Porra, que cascata!!! Na época só eram
encontrados por aqui o nut (stopper) e o hexcentric, além do
piton e da cunha de madeira. Mas a maioria das pessoas utilizavam esse
material para se prender nas fendas para colocar grampo, aliás,
isto hoje ainda é feito.
No final de 1984, fui com alguns colegas escalar no Paraná (na
Ilha do Mel e no Marumbi) e quando colocamos os jogos de stopper e de
hexcentric fora da mochila um escalador paranaense falou: - Que legal,
vocês trouxeram as BESTEIRINHAS. Nós rimos e pensamos que
ele estava de gozação, mas depois percebemos que eles
chamavam material móvel de besteirinha. Dá até
para imaginar a origem desse nome, mas eu não sei como surgiu.
Um pouco antes era lançado no Rio de Janeiro o Manifesto da Escalada
Natural, escrito pelo André Ilha e que já fazia barulho
contra a grampeação de fendas. Aliás, ele ajudou
muito na disseminação do uso de proteções
móveis. O Osvaldo Pereira Filho (Santa Cruz) combatia ferrenhamente
o uso das proteções móveis porque achava que era
coisa de elitista. Segundo ele, todos deveriam ter acesso às
escaladas e por isso colocava grampo nas fendas, fazendo muitas vezes
artificial AO em fendas de 4° grau.
O Mário Arnaud chegou a fabricar um tipo de stopper e um material
que lembrava o hexcentric, mas a sua produção não
foi muito longe, talvez por falta de compradores. Anos mais tarde, no
início da década de 90, o Chiquinho de Petrópolis
(RJ) fabricou alguns jogos de friend, mas era uma produção
artesanal e difícil, por isso o preço final ficava muito
elevado.
Até meados da década de 60, alguns escaladores levavam
bambus para conquistar. Eles talhavam degraus nos grossos bambus e os
amarravam nos enormes grampos do tipo "Pé de Galinha".
Subiam neles e batiam o grampo ou piton mais acima ou escalavam o lance
restante. Várias escaladas famosas foram conquistadas desse jeito
e em muitas foram fixados cabos de aço, como é ainda hoje
a via CEPI no Pão de Açúcar. Nas fendas largas
o piton era substituído pelas cunhas de madeira, que consistia
em um sólido pedaço de madeira onde eram atados uns cordeletes
de 3 ou 4 mm, por onde eram colocados os mosquetões. Hoje ainda
é possível ver algumas nas escaladas no Rio de Janeiro
e só de olhar dá um calafrio.
Em 1994, foi publicado na
revista Climbing (N° 149) um artigo que escrevi sobre as escaladas
da época no Brasil e também um pouco sobre sua história
(Climbing in the land of carnival), mas a editora da revista mandou
vários e-mails perguntando se o que eu tinha escrito era verdade,
porque eles não estavam acreditando como se escalava por aqui
na primeira metade do século XX. Narrei para eles as grandes
conquistas, no Dedo de Deus, no Pão de Açúcar,
etc., mas como o artigo ficou muito grande, eles tiraram a parte da
história e publicaram só a metade do que eu escrevi originalmente.
Provavelmente eles não acreditaram.
A conquista da face Sul do Garrafão (RJ) em 1975, por Eugênio
Epprecht, Marcos da Silveira e Rogério de Oliveira foi um grande
marco para a escalada em móvel no Brasil, mas foi a conquista
do Tragados Pelo Tempo no Corcovado, em 1984, que trouxe as novas técnicas.
O americano David Austin trouxe da Califórnia a técnica
de big wall e junto com o Alexandre Portela e o Sérgio Tartari
abriram a via. Depois disso, outras escaladas foram conquistadas na
Pedra do Sino (RJ), em Salinas (RJ), na Serra do Lenheiro (MG), na Serra
do Cipó (MG) e no Marumbi (PR). Lentamente novos adeptos da escalada
natural e artificial em móvel foram aparecendo e hoje o estilo
se encontra bem consolidado.
Aos poucos foram aparecendo algumas pessoas que traziam material para
revender por aqui. As primeiras lojas foram aparecendo: Montcamp, Mont
Blanc, Sherpa
Algumas faliram, outras novas apareceram. O Plano
Real deu mais condições do brasileiro viajar para o exterior
e facilitou a entrada de material importado. Foi o nosso grande "boom".
Mas hoje, com desvalorização do Real já é
possível sentir um pouquinho de como era difícil adquirir
esses equipamentos. Com a popularização do esporte o mercado
se firmou de vez, mas se a situação econômica do
país continuar no rumo atual, você, camarada, logo terá
que experimentar o que é escalar com um Kichute preto nos pés,
e se for um dia ensolarado, de verão, verás como se fabrica
um micro-forno a energia solar.

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