Relatório de acidentes.

 

 

Os dados abaixo fazem parte de uma estatística de acidentes envolvendo montanhistas, realizada de 1970 a 1990, pelo grupo de resgate do Yosemite National Park (Califórnia - EUA).

 

 

Definições:

 

Busca - É qualquer operação dirigida para ajudar alguém que está em uma situação de risco, em qualquer lugar, por qualquer motivo.

 

Salvamento - Quando as pessoas envolvidas em uma busca utilizam meios (corda, bóia, ...) para retirar outras de uma situação de risco.

 

Resgate - Quando as pessoas envolvidas em uma busca entram no mesmo nível de risco das vitimas a fim de retirá-las da situação.

 

Incidente - Acontecimento não planejado que não resulta em dano(s) ao(s) envolvido(s).

 

Acidente - Acontecimento não planejado que resulta em dano(s) ao(s) envolvido(s).

 

Dano ou prejuízo - Qualquer prejuízo de ordem física, financeira ou patrimonial, sofrido por alguém, quando houve ação, influência ou omissão de outrem.

 

 

Acidentes sem morte:

 

CAUSAS:

 

90% quedas guiando afetando pés e pernas.

10% outros motivos.

 

As lesões se originam de um grupo de fatores:

 

- Rápido desenvolvimento muscular em contraste com a lenta adaptação dos tendões.

- Treinamento irregular.

- Ausência de supervisão técnica.

- Aquecimento deficiente.

- Doença pré-existente.

- Fadiga por falta de condicionamento físico (associada a baixos índices de VO2 máx.).

- Desidratação.

- Dieta pobre e desequilibrada.

- Equipamento de proteção inadequado.

 

LESÕES COMUNS:

 

Local Motivo Lesões típicas
Dedos e punho. Devido a carga que têm que suportar, os dedos e o punho são os pontos mais frágeis de todo o escalador. Distinguem-se dois tipos: as que afetam os tecidos moles (músculos e tendões) e as que afetam as articulações. Exemplos: inflamação de tendões, rupturas de ligamentos e de cápsulas articulares, luxações e estiramentos.
Antebraço e cotovelo.

Os músculos do antebraço são "os motores do escalador": imprimem força aos dedos, a mão e em conjunto com os músculos do braço e do ombro, flexionam o cotovelo na realização de bloqueios e trações.

A lesão mais comum é a ruptura de fibras dos músculos flexores. Isso acontece devido ao braço de alavanca que o cotovelo tem que suportar em certos bloqueios (contração isométrica), pois as inserções dos músculos que realizam este trabalho estão muito próximas da articulação que, em ângulos menores que 90º, fazem aumentar a pressão intra-articular.

Ombro.

O ombro por sua vez, além de ser a articulação de maior mobilidade, é uma estrutura muito sensível devido a fragilidade e instabilidade da gleno-umeral.

Inflamações e luxações na própria articulação e nos músculos do Manguito Rotador, provocadas ao elevar-se sobre as mãos em pronação com o braço em rotação interna e, principalmente, nos movimentos lançados tipo “bote”.

Calcâneo, tornozelo e joelho.

-

Entorses, luxações e Iesões ligamentares como as do L.C.A. (ligamento cruzado anterior), devido a impactos ou desacelerações durante as caminhadas, principalmente, descendo a montanha com mochilas pesadas e em terreno irregular.

Costelas, vértebras, pelve e crânio. -

Fraturas e luxações devido a quedas descontroladas ou desprendimento de pedras durante a escalada.

 

TRATAMENTO:

 

Uma vez produzida a lesão, o escalador deve buscar imediatamente uma forma de aplicar gelo, isto alivia a dor e diminui a inflamação. O auxilio médico pode ser necessário.  

 

Nível Característica Tratamento
1

Dor que inicia horas ou dias após a atividade. Podendo durar uma ou duas semanas.

Utilizar crioterapia (gelo) e investigar a metodologia da atividade.

2

Dor que inicia imediatamente após a atividade podendo durar até duas semanas.

Utilizar crioterapia, redução da intensidade da atividade na ordem de 50% e investigar: técnicas, equipamentos, condições climáticas e etc.

3

Dor manifestada durante a atividade.

Utilizar crioterapia, anti-inflamatórios (se for o caso) e interromper a atividade.

 

COMO EVITAR:

 

- Um prévio aquecimento seguido de alongamento e exercícios de força são muito recomendados antes dos treinos.

- O treinamento para a escalada deve ser progressivo para que as estruturas tenham tempo de se recuperar e se fortalecer.

- Durante os treinamentos em rocha ou em estruturas de escalada o atleta deve dar atenção especial a pegada em agarras pequenas ou incômodas, pois beliscam os tendões e as bainhas.

- As tábuas de treinamento “Campus Board” são perigosas. Deve-se praticar com cuidado, em sessões de curta duração e com as articulações protegidas com bandagens de 1,5 cm de largura.

- Uso de equipamento individual de proteção.

 

PERFIL DAS VÍTIMAS:

 

Escaladores experientes, 60% escalam freqüentemente e a mais de seis anos, encontram-se em boa forma física e guiam vias de 5º grau com facilidade.

 

 

Acidentes com morte:

 

N° DE SALVAMENTOS E RESGATES / ANO:

 

100

 

N° DE MORTES / ANO:

 

51

 

CAUSAS:

 

40% erro na utilização do equipamento de segurança.

25% escalada solo.

25% quedas guiando.

10% desprendimento de pedras.

 

CONSEQÜÊNCIAS:

 

Hipotermia – 45 resgates – 4 mortes.

Queda de raios – mortes de praticantes de caminhada.

Escalada solo – 14 mortes.

Quedas guiando – 9 mortes.

Falhas no sistema de segurança – 22 mortes sendo: 2 por erros durante o rapel, 5 por erros de encordoamento, 3 por abertura de mosquetão e 3 por rompimento da corda.

 

PERFIL DAS VÍTIMAS:

 

Escaladores experientes, 60% escalam freqüentemente e a mais de seis anos, encontram-se em boa forma física e guiam vias de 5º grau com facilidade.

 

 

Conselhos úteis:

 

“Quando for à montanha deixe alguém avisado de suas pretensões, consulte a previsão do tempo e verifique se, em caso de acidentes, existem serviços de resgate disponíveis”.

Pit Schubert

 

PERIGOS CLIMÁTICOS:

 

- Insolação e desidratação podem ser evitadas levando suprimento adequado de água.

- Hipotermia pode ser evitada com roupas adequadas ou com retiradas, bivaques ou acampamentos estratégicos.

- Tempestades podem ser evitadas com planejamento, verificação da previsão do tempo ou procura de abrigo seguro em caso de emergências.

 

DESCIDA:

 

- Verifique a forma de descenso da via e, em caso de trilha, saiba qual o trecho mais exposto.

- Nem todas as ancoragens levam a algum lugar por rapel, leve duas cordas caso o rapel for maior de 25 metros.

- Verifique o nó de união das cordas.

- Não esqueça de fazer os nós nas pontas das cordas para não rapelar além do fim da corda e cair. Da mesma maneira, não esqueça de desfazê-los antes de puxar a corda.

- Esteja preparado para subir pela corda caso não encontre a próxima ancoragem no fim do rapel.

- Evite perder a corda.

 

PEDRAS SOLTAS:

 

- Verifique onde você esta pisando, agarrando ou passando a corda.

- Use capacete, principalmente escalando em rocha podre ou abrindo uma nova via.

 

ESCALADA SOLO:

 

- Muitos escaladores escalam desencordados em terreno fácil - mas com areia, em rocha podre ou molhada, à noite ou distraído há possibilidade de acidente.

- Concentre-se ao fazer aproximações ou descidas desencordado.

 

GUIANDO VIAS:

 

- Instale proteções objetivando não cair sobre platôs ou lacas.

- Tenha certeza que o seu segurador sabe como deter a sua queda.

- Teste bem as proteções móveis.

- Cuidado com grampos de fenda, grampos P e chapeletas, muitos já ficaram na mão dos escaladores !

 

EM CASO DE QUEDA:

 

- Evite cair de cabeça para baixo – use o peitoral em vias com possibilidade de grandes quedas.

- Não deixe a corda passar por baixo ou enrolar nas suas pernas. Se isso acontecer você voará de cabeça para baixo.

 

SISTEMA DE SEGURANÇA:

 

- Cheque e re-cheque todo o sistema desde a cadeirinha até a ancoragem.

- Cordas, fitas e cadeirinha devem ser aposentados após 5 anos de uso médio.

- Materiais que sofreram quedas graves devem ser abandonados.

- Verifique se a sua parada equalizada está balanceada e suporta forças em todas as direções.

- Toda a peça pode abrir, soltar ou quebrar – use backup.

- Verifique se um ponto de ancoragem falhar o outro agüentará.

- Na falta de um mosquetão com trava use dois sem trava invertidos.

- Para segurança em top rope, use uma expressa de backup e não esqueça o nó na outra extremidade da corda.

 

 

A partir dos dados acima podemos concluir que todos os acidentes poderiam ter sido evitados. Nos casos de morte devido a falha do sistema de segurança, claramente trata-se de negligência dos escaladores na utilização dos equipamentos. Assim, antes de sair por aí, verifique se você e seus companheiros realmente sabem o que estão fazendo. Aprender nunca é demais !

 

 

Fontes:

 

SCHUBERT, Pit. Seguridad Y Riesgo. Desnivel. 1996

RESENDE, Orlei. Manual de Escalada em Rocha. 1998

COSMO. Manual de Resgate em Montanha. 2000

HOUAISS. Dicionário. 2002

 

Orlei Jr.

Montanhista