Radiocomunicação nas montanhas.

 

Pode até parecer antiquado estar falando de rádios tipo HT (handheld transceiver) em uma época onde, constantemente, ficamos sabendo de notícias onde uma chamada feita através de um celular salvou a vida de montanhistas que caíram em uma greta no Cerro Tronador - Argentina. Sem dúvida o celular é de muita valia e, realmente, mudou o panorama da radiocomunicação nas montanhas. Agora, quando falamos de expedições ao Everest, Denali, Aconcagua e outras quebradas por aí afora, os rádios nunca foram tão empregados, uma vez que na maioria das vezes as forças armadas possuem infra estrutura de rádio para emergências nessas áreas. A telefonia celular convencional ainda está bem longe desta realidade.

Inicialmente vamos falar das 3 faixas de freqüência mais utilizadas:

PX

 


Rádio Cobra 148 GTL - um bom rádio para operações na faixa de 11m (PX).

 

É a conhecida faixa do cidadão. Abrange as freqüências de 26.965 a 27.605 Mhz Os aparelhos que operam na faixa do cidadão trabalham com canais numerados de 01 a 60, na verdade o usuário nem precisa saber qual a freqüência que o canal indica. O comprimento da onda emitida é de 11m em AM (amplitude modulada) ou em SSB (single side band), que garante um longo alcance, uma vez que o sinal é refletido nas camadas superiores da atmosfera (ionosfera). É comum, de uma estação de PX, que o operador se comunique com a Argentina ou Chile, por exemplo. É uma faixa muito útil na estrada, durante as viagens, por isso quase todo caminhoneiro tem um PX. Dentre as características desta faixa podemos destacar: as longas antenas (chamadas "Maria mole") e também a qualidade de áudio, que oscila muito, dificultando muitas vezes, a comunicação. Devido ao tamanho e peso elevado do transmissor não são utilizados os HT's na faixa do cidadão.

 

Antena plano-terra.

 

VHF e UHF

 

Yaesu FT-411 E.

 

Quando falamos de VHF ou de UHF, estamos falando de um espectro bem mais amplo de freqüências.

 

No VHF, o comprimento de onda é menor, apenas 2 m, e a faixa abrange freqüências de 130.000 a 170.000 Mhz, onde encontramos as transmissões de rádio FM, alguns canais de TV, aviões, rádio amadores e comunicações públicas como: polícia, bombeiro, exército e etc.

 

No UHF, além da faixa para radioamadores, existem alguns canais de TV, links entre centrais telefônicas, toca de dados, os celulares e etc.

 

A maioria dos HT's trabalha nas faixas de VHF ou UHF. O UHF é preferido em ambientes urbanos, salas fechadas e interiores, pois tem boa reflexão em concreto e construções. O telefone celular, por exemplo, opera na faixa UHF entre 800 e 900 Mhz.

No entanto, na montanha ou no campo, é mais comum utilizar o VHF já que o UHF tem uma reflexão de onda pior que o VHF em folhagens, gelo, rios, etc. Para entender o porquê, basta observar o micro ondas. Nele, as ondas emitidas para esquentar o alimento são UHF, tais ondas são absorvidas apenas pela água, sendo refletidas pelos demais materiais. O UHF tem como vantagem que sua antena é um pouco menor (sua onda mede 70cm) do que a de VHF (que tem 2m).

 

No Brasil, para operar um transmissor em qualquer freqüência, você precisa ter um indicativo ou licença - o COER - Certificado de Operador de Estação de Radioamador que é distribuído pela ANATEL após a aprovação no teste aplicado por qualquer uma das LABRE's espalhadas pelo território nacional. Um indicativo é como o seu RG na radiocomunicação. Todos QSO's (chamados) devem ser iniciados com a troca de indicativos entre todos os operadores. No PX costuma se fazer isso, mas ao invés de indicativos (PY3OSR ou PX3D3121), os participantes trocam um codinome inventado pelo próprio operador (Estação Everest).

 

A licença de radioamador é dividida em classes: A, B, C e D. A mais simples de tirar é a classe D, que dá ao aprovado o direito de operar somente nas faixas de 70cm, 2m e 6m. Já para a classe A o candidato é submetido a um teste bastante difícil que inclui, até mesmo, um teste prático de telegrafia. Ser classe A é possuir o direito de usar várias faixas de freqüência e bastante potência no transmissor. Os radioamadores classe A são aqueles malucos com umas torres e antenas enormes no quintal de casa e que se divertem falando com Japão !

Em nosso caso, a Classe D dá direito à freqüência que mais nos interessa como montanhistas, o VHF 2m FM.

Existem alguns HT's, VHF ou UHF, como os utilizados pelos segurança dos shoppings, que não necessitam de licença, porém eles não permitem que você escolha a freqüência. Nestes rádios a freqüência é dividida por canais, eles operam em VHF entre 150 e 159 Mhz. Essa faixa, praticamente, não é utilizada por ninguém e tais rádios ainda tem a grande limitação de não ter a possibilidade de fazer uso de repetidoras.

 

Na Argentina a radiocomunicação VHF é muito popular e se você levar seu rádio para o Aconcagua, Tronador, Cerro Catedral, Los Glaciares e vários outros lugares, você pode se comunicar com os clubes andinos, com o exército e, inclusive, utilizar as freqüências de emergência disponíveis para os montanhistas.

 


Yaesu FT-50 R.

 

Telefonia Celular, Faixa do Cidadão, enfim, tudo o que se possa pensar em radiocomunicação, os 2 metros oferecem. Por esta razão é a atual faixa de acesso de mais de 50% dos interessados. Contatos diretos em linha de visada vão até 50 km ou mais. Nas propagações esporádicas, por influências atmosféricas positivas, consegue-se contatos até 1.000 km, mas o mais bacana são mesmo as repetidoras. Estas estações que a gente nem sabe onde estão, porém as ouve com toda a clareza, em casa, no carro e até na rua, como se fosse um telefone celular. Aliás o telefone celular foi criado baseado em experiências de radioamadores na faixa de 2 metros.

 

O desenvolvimento atual.

 

As repetidoras, que são estações colocadas em pontos estratégicos, principalmente no alto de morros, recebem o sinal em uma freqüência e ao mesmo tempo o retransmitem com uma grande potência em outra freqüência. Essa diferença entre a freqüência de entrada e saída é conhecido como off-set e poderá ser ajustado na maioria dos rádios, inclusive os HT's. É padronizado o off-set de 600 Khz. Assim, através de uma repetidora, é possível conversar com companheiros em outras cidades mais de 150 Km de distância usando um HT com apenas 5w de potência, coisa que faço com freqüência aqui em Analândia.

 

Yaesu FT-600.

 

As repetidoras são mantidas pelos radioamadores e seus clubes e são de uso restrito a pessoas com indicativo. Todo o usuário de uma repetidora deverá reportar-se sempre com respeito e cordialidade a essa "gentileza" de ter uma repetidora à disposição sem custo algum.

 

Na comunicação sem o uso de repetidoras (simplex) a distância atingida depende muito do relevo. Se houverem muitas montanhas entre os 2 rádios, usando 5W de potência, você pode não passar de 3 Km de alcance. Agora, se você está em um local alto, sem nenhum acidente geográfico "entre" os rádios, o alcance pode ser de maior do que 100 Km! O grande limitador de alcance do HT é o tamanho da antena. O ideal seria que ela tivesse algo próximo a 1m, mas como não é possível operá-lo com uma antena tão grande, a redução faz que haja uma certa perda na potência. Se você conecta o seu HT em uma antena VHF de carro ou doméstica, você claramente percebe um sinal muito mais forte.

 

Estação PY2AA.

 

O rádio "na escuta" gasta pouca bateria quando comparado ao momento onde está transmitindo. Assim, um bom rádio deve permitir que você regule no mínimo 3 níveis de potência de saída, de forma usar sempre a menor potência necessária, economizando assim a carga da bateria. Em geral os HT's tem 5W de potência máxima, alguns chegam a 7W. Não se esqueça que quanto mais potência, mais rapidamente vai a bateria. Outra necessidade em nosso caso é adquirir um modelo "splash proof" (à prova de respingos) e ter um saquinho estanque para salvar o rádio quando a situação ficar "molhada".

 

Existem dezenas de fabricantes de rádios. Os mais conhecidos são: Yaesu, Keenwood, Motorola, Icon e etc. Para ter uma idéia de preço, espere pagar por um HT a quantia de 180 a 300 dólares sem acessórios. Tais acessórios, não obrigatórios, incluem: carregadores rápidos, fones, microfone com viva vox, antenas móveis ou base (para ser instalada em casa), capas, suportes e etc.

 

Parque de antenas da PY2AA.

 

FRS

 

Family Radio Service. Nova modalidade criada para facilitar a comunicação informal entre amigos, familiares, ... onde são utilizados transceptores a bateria de baixo custo e fácil manuseio tais como os Motorola Talkabout.

 

Motorola Talkabout.

 

Maurício "Tonto" Clauzet

Orlei Jr.

Montanhistas