Grampos P - uma a questão colonialista.

 

Tal qual a história das sociedades, a história do montanhismo tem sido escrita como se ela só existisse em decorrência dos feitos dos europeus e americanos em seus países de origem onde estão as mais altas montanhas da Terra. As publicações sobre as ascensões ditas mais importantes não contém uma linha sequer sobre as conquistas de outros povos, incluindo-se os brasileiros.

 

O Brasil somente passa a ter algum interesse, como área de escalada, a partir da publicação dos artigos de André Ilha na revista Mountain em nos anos 80. Até então, as nossas montanhas que não têm gelo eram consideradas de menor importância e ignoradas solenemente pelos europeus que por aqui passavam rumo ao Chile e Argentina. Para eles a história do montanhismo não passava pelo Brasil. Não tínhamos montanhas importantes, não tínhamos grandes escaladores, em resumo, não tínhamos história. Por muitos anos os próprios montanhistas brasileiros assumiram uma postura de inferioridade, sentindo-se menores em relação aos do chamado Primeiro Mundo, ignorando sua própria experiência, extremamente rica, tanto na serra dos Órgãos, como no Itatiaia e no Paraná. Basta dizer que não existe nenhuma publicação sobre nossa história montanhistica.

 

Poucos sabem quem foram Teixeira Guimarães, Sílvio Mendes, Índio, Almy Ulisséa, Patrick White, Rodolfo Chermont e muitos outros. O primeiro estudo histórico geral sobre o montanhismo no Brasil, escrito em alemão por Richard Willy Brackmann, aparece somente em 1965 no Staden Jahrbuchn do Instituto Hans Staden de São Paulo. Mesmo atribuindo equivocadamente aos alemães e austríacos a 'criação' do montanhismo brasileiro, Brackmann faz no seu artigo uma interessante análise dos primeiros anos de nossas escaladas.

 

Mas o que isto tem a ver com os grampos?

 

É simples. O grampo P é uma invenção brasileira e ponto de partida de nossa cultura de montanha. Sua utilização e desenvolvimento ao longo do século XX representam a afirmação de uma forma de conquistar e escalar própria, que a meu ver resgata a nossa importância, redimindo-nos do complexo de inferioridade.

 

O grampo P foi criado pelo conquistador do Dedo de Deus, José Teixeira Guimarães, em 1912, como proteção fixa. Os europeus, mais precisamente os alemães, só criaram seu grampo fixo na década de 1940. Até esta data eles usavam pitons, vindo a fabricar a chapeleta para escalada em rocha muito tempo depois dos brasileiros terem criado o grampo, ainda que fossem na época os melhores escaladores do mundo. Alguns dos 22 grampos do ferreiro pernambucano Teixeira Guimarães fixados no Dedo e que foram poupados da fúria retrogrampedora do UNICERJ estão ainda sendo utilizados por todos que repetem a via de conquista, há exatamente 88 anos, sem quebras ou mortes.

 

Enquanto isso no Yosemite, nos Alpes e na Itália spits e parabolts - invenções maravilhosas do Primeiro Mundo, símbolos do modernismo em matéria de segurança, testadas, homologadas, radiografadas e certificadas pela UIAA e mais recentemente pela CE, são degoladas pelas chapeletas dos melhores fabricantes, provocando acidentes fatais que as revistas especializadas não escondem. Inúmeros casos com paradas duplas! Os grampos brasileiros foram sendo produzidos em serralherias 'subdesenvolvidas' à medida do crescimento das conquistas, notadamente a partir da década de 1940, quando livre da inicial influência européia, no CERJ, o grupo de Sílvio Mendes dá forma à escalada brasileira tanto do ponto de vista técnico como tecnológico. Os grampos de ½ ou de 5/8 polegadas passam a ser usados como proteção nos lances em livre e para progressão em artificial, e os guias sobem com corda de sisal na cintura. Brackmann chamou esta técnica brasileira de Gesteinbohrtechnik. Assim, Sílvio Mendes conquistou em menos de uma década a Chaminé Rio de Janeiro, no Corcovado; a Stop, no Pão de Açúcar; A Travessia dos Olhos, na Pedra da Gávea; o O Pico Maior, o Capacete e a Caixa de Fósforos em Friburgo (Salinas); o Pico do Itabira e a Freira no Espírito Santo.

 

A Segunda Guerra Mundial aprofundara o isolamento do Brasil e a evolução experimentada pela nossa escalada foi inteiramente autônoma, sem influências externas. Os nossos grampos, inicialmente grandes, de diâmetro adequado também à fixação de grossos cabos de aço - até década de 1960 a maioria das vias era cabeada, nossa única semelhança com as vias ferratas européias - foram dando lugar a artefatos menores de 3/8 e ½ polegadas fabricados com a participação de engenheiros metalúrgicos com grande conhecimento técnico. Exemplo disso são os grampos do Pellegrini que estão ainda na CERJ, na Leste do Pico Maior, na Gallotti, nos Coloridos e em outras vias atestando a qualidade do processo dos serralheiros brasileiros não homologados. É certo que a tecnologia usada na fabricação de nossos grampos é basicamente a mesma, mas houve melhorias no controle do aço e das soldas. O uso cada vez mais intensivo das furadeiras tem melhorado a fixação das proteções, evitando o emprego de palhetas. Os grampos de aço inoxidável (Pellegrini e Stumpf), galvanizados (Santa Cruz) representam um avanço acentuado quanto à sua durabilidade.

 

Os brasileiros continuam a fabricar grampos de forma artesanal, por serralheiros que não tem na fabricação deste produto sua principal fonte de renda. Não temos um mercado de escalada que justifique a implantação de um setor industrial como há na Europa e Estados Unidos. Assim, a pesquisa tecnológica neste campo praticamente não existe, o que não significa necessariamente um atraso, uma vez que os nossos grampos tem atendido às nossas necessidades, isto é, não há registros de acidentes fatais devido à sua quebra.

 

O nosso mercado é tão pequeno que o maior fabricante, o Chiquinho de Petrópolis, não faz mais do que 1.500 grampos por ano, mesmo diante do crescimento mundial da escalada na década de 1990, e da abertura da economia brasileira aos produtos importados. Essa abertura levou ao desenvolvimento de um mercado em São Paulo, assentado principalmente em muros e falésias, de onde tem partido as principais críticas aos grampos. Os defensores das chapeletas são principalmente escaladores jovens, sem tradição de montanha e com pouco ou quase nenhum conhecimento histórico. São fascinados pelos padrões e produtos estrangeiros. Para eles o paradigma da escalada segura deve ser a parada dupla com chapeletas, e o grampo é o símbolo do atraso, porque não é homologado. Mas como explicar que a homologação da UIAA não tenha evitado as mortes no Yosemite? Leiam o artigo do Makoto na extinta revista Solo.

 

O pequeno mercado brasileiro de escalada não movimenta capital suficiente que justifique a criação de uma entidade que homologue seus produtos. O teste dos grampos realizado por Marcelo Roberto e Miguel Freitas, na PUC - Rio, foi o primeiro no Brasil e surgiu da necessidade de verificar o quanto eram seguras as originais proteções brasileiras. Foram testados grampos feitos pelo Chiquinho, os inox de Wanderley Stumpf e os fabricados pelo Unicerj, provavelmente na UFRJ. Os resultados do teste que podem ser obtidos na home page do CEC, mostraram que o grampo de pior 'performance' suportou até 1.400 kg quando começou a romper. Os detratores dos grampos argumentam que é pouco, que as chapeletas suportam muito mais. Mas, porque então as homolgadas chapeletas, seus spits e parabolts tem rompido? Os 1.400 kg de nossos grampos não são suficientes? Quanto suporta o corpo humano? Porque temos que aceitar os padrões de homologação da UIAA e CE? Os testes mostraram também - e os detratores não divulgam - que os nossos grampos fixados com olhal para baixo, suportam mais de 4.000 kg, ainda que as soldas não sejam de boa qualidade.

 

O Pellegrini (engenheiro da Cia do Cabo Aéreo do Pão de Açúcar e conquistador da Leste do Pico Maior) tem um projeto de grampo P apresentado no Seminário da Interclubes sobre Grampeação em 15 de março (os paulistas não apareceram) que elimina os problemas decorrentes da solda do olhal. Mas o custo ainda é alto. Os custos de fabricação no Brasil de grampos como o do Pellegrini, são elevados para um mercado cujos níveis salariais são muitos baixos. A viabilidade econômica de fabricação de um grampo forjado sem soldas somente seria possível (quantidade estimada) a partir de 10.000 unidades. No momento isto é inviável.

 

Porque tem havido tanta polêmica sobre o grampo?

 

A opção dos paulistas está baseada em razões técnicas? Aparentemente sim, mas o seu argumento definitivo é a velha postura colonizada: "lá fora se faz melhor". O que não é verdade. Abolir o grampo é abdicar de sua própria identidade.

Talvez os paulistas estejam certo, talvez São Paulo não seja Brasil.

 

José Ivan Calou Filho
Montanhista